terça-feira, 14 de junho de 2011

O dia “A”

Parecia um sábado como outro qualquer, daqueles que é seguido de uma poderosa enxaqueca com uma dosagem extra de diarréia, causada por sei la o que. Comum. Ou não. E é por isso que ela sempre foi adepta do “ou não”.
O sol já entrava no quarto e o calor, tipico do verão nordestino, se alastrava sem pedir licença. Mas havia uma ordem clara - não sai da cama - parecia um primeiro aviso da nova vida que lhe esperava. Mas ela ainda estava confusa, lembrando da instruções que recebera na infância para esse momento. Seu pai, contrariando o combinado, sorria e piscava os olhos numa frequência que lembrava as asas de um beija-flor. A alegria contagiava o quarto, mas a moça ingenuamente não sabia o que estava por vir.
A porta se abre, direcionando o caminho para nova vida. O caminho de chocolates e balas dava a falsa impressão de que seria fácil. Doce ilusão. Engatinhando, a donzela precisava provar que merecia o tão sonhada vida. Com o sorriso mais singelo, a pupila dilatava - como sempre - ela percorria a carreira que lhe foi proposta.
De inicio o cheiro dos lírios lhe davam as diretrizes de que havia um cheiro melhor, o qual só a noite ela iria experimentar. O cartão lhe trazia a memoria princípios bíblicos que ela sempre precisava relembrar. Confiar. Não andar ansiosa. Ele já mostrava a capacidade de ensiná-la. Já com os joelhos vermelhos, ela chegou ao quebra-cabeça. Nostalgia. Sua infância passou como um curta metragem. Ele sabia exatamente o significado disso para ela. Ele a conhecia.
“Que a distância que nos separa, fortaleça a saudade que nos une”. Sem delongas ele arrancou do peito o que só eles sabiam. A dor e a alegria da palavra saudade.
Continuando a caminhada a moça deslumbrou a grande recompensa da sua espera. Ele declarou: Você é a peça fundamental na minha vida. Ela já sabia disso, mas precisava ler para poder acreditar que seu sonho era real.
Como boa filha que sempre foi, obedeceu a todas as instruções da sua mãe. Foram ao salão.
O salão sempre foi o lugar que a família apreciava, afinal é dele parte da renda familiar, mas naquele dia tudo o que ela não queria era estar la. Horas de espera, ao som de exaltasamba, não fazia o menor sentido. Mas ele estava realmente obstinado a ensiná-la a esperar, foi assim desde o principio.
A hora do almoço se aproximava, o estomago já avisava. E pela janela viu-se um vulto rosa passando. Ela não acreditou quando viu, ele realmente estava lhe surpreendendo. O buquê de baloes invadiu o ambiente e trouxe a alegria e a recompensa por mais uma espera. A criança que havia dentro dela extravasou e levou-a a correr pelas ruas mostrando seu troféu.
Como num conto de fadas as novas instruções do cartão lhe sugeriam usufruir dos artifícios embelisticos - me permitam inventar essa palavra - para aguardar o príncipe encantado.
Ao fim da tarde, chega a linda carruagem para buscá-la. O rosa das orquídeas e o azul do vestido se completavam numa harmonia perfeita. Tudo confirmava como era bom aos olhos de Deus aquele momento. O cartão lhe chamava para aproveitar a lua. A mesma lua que por diversas vezes durante o longo intervalo de 7 meses foi sua companhia nas lembranças do seu amado. Sim, ela esperava por esse dia, em que poderia apreciá-la com ele. Deus mais uma vez mostrava que tudo tem seu tempo.
Chegou em casa, se arrumou apressadamente, pois ele não costumava atrasar e ela queria agradá-lo no pouco que podia. E mais uma vez contrariando o obvio, ele se atrasou. O atraso mais atrasado que ela já viu. 15 minutos de espera cooperaram harmoniosamente para o banho de água fria que sua mãe lhe dava. Ela como sempre autoconfiante acreditava fielmente na sua intuição: o grande dia havia chegado. Mas como diz o dito popular: nos menores frascos se encontram os melhores perfumes. A baixinha num golpe preciso tirou toda certeza do coração da moça. Como uma fada madrinha, ela fez a moça voltar a sonhar.
Ele chegou para buscá-la na sua carruagem - o uno do sogrão. O coração dela palpitava, as pernas balançavam, o sorriso não encontrava mais espaço no rostinho pequeno, os olhos brilhavam. É, isso é amor. Foram rumo a qualquer lugar, pois a partir dali ela não se importava pra onde iriam, só precisava ser levada por ele. Praia. Uma sugestão estranha, pois naquele dia o céu avisava que cairia um temporal. Ela não achou uma boa ideia, mas com ele qualquer ideia era boa.
Chegaram a praia, vagaram de um lado para o outro. Ele: preocupado. Ela: ansiosa. Essa foi a última forma do rapaz tratar o caráter da moça. A espera foi rápida, porém para ela uma eternidade. Assim, passeando pela areia da praia procurando sabe lá o que, a donzela viveu seu sonho sur[real]. O que desde criança era um desejo se transformou na mais bela árvore já vista. Uma árvore de algodão doce. A grama era de pirulito de coração e um tapete acomodavam o casal apaixonado.
O sorriso contagiou seu rostinho e não saiu mais dali. Ele falou doces e sinceras palavras que estavam entaladas a um bom tempo. E perguntou: Quer casar comigo?. Ela respondeu: Sim, sempre. Esse momento marcou o início de uma família que não tem fim. Como ela mesmo disse: Sim, é para sempre. Ou no mínimo, por décadas. Não é?